Por Willian Valadão, CEO e cofundador da Dynadok, startup brasileira especializada em automatizar a validação de documentos com inteligência artificial

As startups brasileiras têm enfrentado desafios que vão além da inovação tecnológica: a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e os investimentos contínuos em cibersegurança. Para empresas em estágio inicial, especialmente aquelas que atuam com tecnologias sensíveis como a inteligência artificial (IA), esses temas deixaram de ser diferenciais e se tornaram requisitos essenciais para a viabilidade do negócio. Na prática, quando uma startup busca fechar contratos com grandes empresas, é comum se deparar com processos rigorosos de auditoria, nos quais são exigidas evidências claras de conformidade regulatória, maturidade em segurança da informação e governança de dados.
Esse movimento reflete a crescente responsabilidade que grandes organizações assumiram diante de riscos regulatórios, financeiros e reputacionais. Ao contratar um fornecedor de tecnologia, essas empresas estendem parte de sua própria exposição a terceiros, o que torna inevitável a aplicação de questionários extensos, auditorias técnicas e solicitações de certificações específicas nas áreas de LGPD e cibersegurança.
Certificações como ISO 27001, SOC 2 e outras normas internacionais de segurança da informação são frequentemente exigidas como condição para o fechamento de contratos. O desafio está no alto custo desses processos, mas esse é um caminho inevitável para empresas que querem crescer e atender a grandes corporações.
Startups que não conseguem comprovar aderência a padrões mínimos de segurança e proteção de dados acabam excluídas de processos de contratação com grandes clientes, justamente aqueles que poderiam impulsionar crescimento, receita recorrente e credibilidade de mercado.
Esse cenário se torna ainda mais complexo quando se observa que a limitação de recursos financeiros já é um obstáculo relevante para o ecossistema. Um estudo conduzido pelo MIT Technology Review Brasil, em parceria com o Google Cloud, revelou que 41% das startups brasileiras não contam com nenhum tipo de investimento. Segundo o levantamento, a captação de recursos financeiros foi o principal desafio apontado pelos fundadores, mencionada em 38,46% das respostas. Ou seja, ao mesmo tempo em que precisam investir em segurança e conformidade, muitas startups operam com margens apertadas e acesso restrito a capital.
Com o avanço acelerado da IA, a preocupação das empresas com LGPD e cibersegurança se intensifica ainda mais. Tecnologias de IA ampliam significativamente a capacidade de processamento de dados, mas também introduzem novos vetores de risco. Deepfakes, clonagem de voz, manipulação de vídeos e automações mal governadas podem ser exploradas de forma fraudulenta, comprometendo sistemas, identidades e informações sensíveis. A falta de governança de IA deixa de ser apenas uma lacuna operacional e passa a representar um risco crítico do ponto de vista regulatório e de segurança da informação.
Casos recentes reforçam a materialidade dessas ameaças. Em 2025, a Sinqia, especializada em conectar bancos ao PIX, foi alvo de um ataque hacker decorrente de uma vulnerabilidade em seus sistemas, resultando no desvio de aproximadamente R$ 420 milhões por meio de transferências. O episódio ganhou ampla repercussão e evidenciou como falhas de segurança podem gerar impactos financeiros imediatos, além de comprometer a confiança do mercado, de clientes e de parceiros. Situações como essa ampliam a pressão sobre fornecedores de tecnologia, incluindo startups, que passam a ser avaliados com ainda mais rigor por grandes corporações.
Dados globais reforçam esse cenário de risco elevado. Um levantamento da IBM, que considera informações do Brasil, indica que o custo médio de um vazamento de dados no país chegou a R$ 7,19 milhões por incidente em 2025, um aumento de aproximadamente 6,5% em relação ao ano anterior. Setores como saúde, finanças e serviços estão entre os mais impactados, com prejuízos médios que ultrapassam R$ 8 milhões por violação. Apesar desse contexto, muitas organizações ainda não adotaram políticas estruturadas de governança ou controles de acesso voltados à IA. O mesmo relatório aponta que 87% das empresas brasileiras não possuem diretrizes formais de governança de IA, evidenciando um descompasso entre a adoção acelerada da tecnologia e a maturidade em gestão de riscos.
Investir em cibersegurança, governança de dados e conformidade com a LGPD deixa de ser apenas uma obrigação legal e passa a ser um elemento estruturante da estratégia de crescimento. A adoção de práticas sólidas nessas áreas contribui para a mitigação de riscos, fortalece a confiança de clientes e parceiros e se torna um fator decisivo para a construção de relações comerciais sustentáveis em um ambiente de negócios cada vez mais atento aos impactos da tecnologia.
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